Sobre
sua chegada ao mundo, Maria Marluce Simões de Medeiros diz: “Aos
pés da Virgem da Penha e ao sopé da grande SERRA, nasci aos nove
dias do mês de junho do ano mil novecentos e quarenta e três, em
Serra Talhada.
Filha
de Domingos Rodrigues de Carvalho e de Beatriz Simões da Silva;
éramos seis irmãos, porém três morreram antes de um ano de idade,
ficamos Maria do Socorro, eu e Jurandi (in memorian). Sou o filho de
número quatro”.
Marluce
- que quer dizer: Mar e Luz, e assim como a vastidão do mar e o
gigantesco alcance da luz, Marluce é imensa no ser e nos feitos. Foi
aluna de escola pública e sempre procurava se destacar,
principalmente em mensagens e redações sobre qualquer assunto.
Desde
a mais tenra idade sonhava em cursar Advocacia, mas as condições
financeiras eram poucas, o que a levou a mudar de rumo logo no início
da vida estudantil. Seu antigo primário foi no Grupo Escolar
Solidônio Leite, até a 4ª série… “a
professora que me incentivou ao magistério foi dona Dorinha
Policarpo”. Menciona.
Ao
pedir que nos conte um fato curioso ou engraçado da sua infância
ela relata: “a
fim de comprar materiais escolares diferentes, por exemplo: só
existia borracha ponteira, e surgiu a borracha nova de 2 cores
(vermelha
e azul) que
apagava lápis e caneta.
Para obtê-la, confeccionei roupas de bonecas, sapatos e bolsas para
as colegas de ‘posse’ (meninas de funcionários da COLIER) e as
filhas de comerciantes como Mariluce Carvalho, como saldo ganhei uns
trocados e comprei a sonhada borracha para mim e para meu irmão
Jurandi, o caçula da família. São tantas lembranças que só
recordo o quanto cresci como ser humano por ter enfrentado tantas
barreiras, e venci com garra e determinação”. Relembra.
O
Exame de Admissão, o vestibular da época, ela fez no final do ano
de 1954, porém ele, só iniciaria aos estudos seguintes (a Escola
Normal para meninas e o Cônego Torres para os meninos), se fosse
aprovado, ela passou de pronto e, estudou na famosa Escola Normal
Imaculada Conceição de 1955 a 1958.
A
sua formação de Professora do 1º Ciclo foi concluída na cidade de
Belo Jardim – PE no Colégio Nossa Senhora do Carmo, onde veio a se
formar em 1959, aos 16 anos e 6 meses, não podendo assinar o diploma
(isso só era possível quando completasse 18 anos).
Já
professora polivalente ensinado na zona rural, mas com sede de
conhecimento e assim, crescer profissionalmente, volta para sala de
aula na Escola Normal Cônego Tôrres em 1964 e 1965 para concluir o
2º Ciclo como Professora Primária.
Parar
de estudar nunca esteve em seus planos, por isso em 1976 prestou
Vestibular
em Vitória de Santo Antão-PE para cursar a Licenciatura Curta em
Língua Portuguesa. “Depois
fiz a Licenciatura Plena em Arcoverde em 1982, já em 1984 cursei a
Pós-Graduação em Língua Portuguesa ‘lato senso’ na Pontifícia
Universidade Católica de Minas Gerais - Belo Horizonte”.
Na
sua formação acadêmica ela têm participação em capacitações,
seminários e fóruns com temática docente. Ao perguntar sobre
outros cursos, ela responde:
“tenho o de Curso de Teologia para Leigos concluído em 2009; Curso
de Ministra da Palavra em 2015 e o Curso de Formação Fé e Política
no ano de 2020, realizados pela Paróquia Nossa Senhora do Rosário
da Diocese de Afogados da Ingazeira”.
Nos conta Marluce sobre sua formação.
“Em
1960 fui lecionar no lugar de Dona Vera Regalado na residência do
Sr. Antônio Dionísio por 2 períodos em Caiçarinha da Penha, aí
ganhei a afilhada Isa, hoje a doutora pediátrica Isabel ‘Caiçara’.
Em seguida, passei uns 2 anos no bairro Borborema”.
Relata sobre o início de sua carreira profissional como normalista.
Surgiu
então, o “Plano
Piloto de Erradicação do Analfabetismo”
relembra nossa entrevistada que voltou a dar aulas na zona rural:
“Fui lecionar em São João dos Gaias, nas casas do Sr. José
Higino e do Sr. Luiz Gaia. Aí demorei sete anos. Bonzinho Magalhães
e Vilmar
Gaia
foram (alguns) alunos dessa época”.
Pontua, e acrescenta:
“como professora polivalente, reconheço que não só ensinei, como
também, aprendi ‘coisas que não me ensinaram nas Faculdades por
onde passei’, o
amor à terra, a luta obstinada pela sobrevivência, a fé inabalável
em Deus e o reconhecimento de cada individuo como um irmão”.
Enfatiza a professora.
Passados
sete anos, foi transferida para o Grupo
Escolar
Antônio Timóteo e depois para a Escola Cornélio Soares, que
funcionava onde hoje é o Banco do Nordeste – BNB. Giovana Pereira
e Hermógenes Simões foram seus alunos nesse período.
Em
seguida, leciona no Ginásio Industrial Cornélio Soares (prédio
atual), depois de um tempo foi transferida para o Centro de Educação
Rural Methódio de Godoy Lima: “Fui
uma das professoras-fundadoras
dessa escola na qual me aposentei, encerrando meus vinte e oito anos
de regência em salas multisseriadas e em salas normais como
professora estadual.
Estudaram
comigo nesse tempo Magno Melo e Socorro
Padilha”.
Registra.
Via
de regra, casou-se em 1967 aos 24 anos com Genilton de Medeiros Souza
(in memorian) com quem teve dois filhos: Hermógenes e
Honiógenes
de 56 e 54 anos respectivamente.
Seu
cônjuge faleceu precocemente em 19 de maio de 1980 com apenas 38
anos. Passados oito anos do falecimento do seu esposo ela adotou a
menina Chiara
Adriana. “A
família cresceu e hoje tenho sete netos biológicos: Pricila,
Hémerson, Luiz, Stefany, José Heittor, Gustavo Enrico
e
Ian Gabriel, e mais três de coração que a vida me deu: Arthur,
Breno e Beatriz. Puxando a quarta geração chegaram os bisnetos:
Rhamom, Rhana,
Rhuana e Rhuan”.
Conta
com orgulho a matriarca.
Quando
e como aconteceu sua chegada na Faculdade de Formação de
Professores de Serra Talhada? “Recebi
um convite em 1983 da então diretora Srª. Solange Nunes de Souza
Oliveira, para fazer parte da Congregação da FAFOPST, onde cheguei
ao limite como docente, trabalhando com quase todas as cadeiras do
Curso de Letras”.
Seus
serviços em prol da educação serra-talhadense são notáveis,
tanto é que a mesma diretora, acreditando na responsabilidade e no
compromisso que a professora Marluce Simões demonstra com a
Educação, fez-lhe outro convite: acumular as cadeiras de Língua
Latina, Português e Literatura Latina, na Faculdade de Ciências
Humanas do Sertão Central de Salgueiro de 1986 a 1988.
“Em
um período de três anos ampliei meus conhecimentos acadêmicos, e
mais, conheci gente nova, como Marilu Leal e outras, convivi com
diferentes
realidades,
armazenei mais experiências de vida”. Comenta
ela sobre mais essa empreitada educacional.
Fazendo
jus ao significado de seu nome, ela acumula funções profissionais e
na vida cotidiana: mulher
estudada, dona de casa, esposa, mãe, avó, costureira, confeiteira,
cuidou com zelo da sua mãe, que viveu por 105
anos,
bisavó,
cristã leiga com atividades na Igreja em diversos serviços e
pastorais.
Além
de professora comprometida, considerada o “doce
de coco em jejum da FAFOPST”,
porque cobrava do aluno retorno de conhecimento, presença nas aulas,
participação nos fóruns simulados, pesquisa de dados, provas
escritas e apresentações de trabalhos. “Sargento
Roberto Teles e Cidinha da Via Brasil dentre outros, foram alunos
universitários
desse
tempo”.
Registra a mestra.
“Hoje
eles sentem o resultado dessas exigências. São profissionais em
diversas áreas na sociedade, colhendo os frutos das sementes que
plantaram e que cuidaram com responsabilidade. Todos devem crescer
pelos próprios méritos, sem trampolins políticos que são hoje da
situação e brevemente da oposição”.
Justifica seu posicionamento profissional.
Continuando
a descrever seu currículo de professora, ela nos conta: “fui
uma das fundadoras
do
Colégio de Aplicação da Faculdade de Formação de Professores de
Serra Talhada - CAFAFOPST, por indicação do saudoso diretor e
professor o Sr. Clóvis Nogueira Alves, até a gestão da Srta.
Veralúcia Pereira de Sá. São alunos dessa época o Dr. Aílo
Sérgio e Andréa, filha do professor Geraldo”.
Ainda
na FAFOPST/AESET, ela foi eleita pela Congregação (Colegiado de
Professores) para ocupar o cargo de Chefe do Departamento do Curso de
Letras por 2 anos e reeleita por mais 2.
A
sua aposentadoria pela Secretaria Estadual de Educação veio em
1988, continuando na ativa na FAFOPST/AESET até 2003. “Também
ensinei na Escola Pequeno Príncipe de propriedade do casal Bonzinho
Magalhães e Dalma Régia, como exemplo de alunos tenho Rafael
Mourato e Paulo André Magalhães.
Trabalhando
apenas à
noite na FAFOPST, a inquieta e prestativa professora monta na sua
residência a Escolinha
de Reforço,
que preparou durante 13 anos, adolescentes para cursos de vestibular,
escola técnica e concursos públicos comprovando o exposto ela cita
os alunos Felipe Barros (PRECON) e Marcos de Vanduí Melo.
“Ao
todo, em escolas rurais e urbanas, particulares, públicas e
Faculdades colaborei com a Educação num período de 45 anos
ininterruptos manhã, tarde e noite. Encerrei a carreira do
Magistério com a mesma responsabilidade do início, conscientizando
o aprendiz de que o diploma deve ser o reflexo do conhecimento e da
ética profissional, caso contrário é uma arma na mão daquele que
não sabe lidar com ela”.
Pontua a experiente Mestra.
“Não
tenho uma história interessante, nem feitos faraônicos, tenho
histórias de superação. Passaram por mim, alunos de todas as
classes sociais nas faculdades e
outros cursos,
porém os de menos posses, eram sempre os mais esforçados:
formaram-se, foram aprovados em concursos e trabalham como
profissionais liberais, autônomos e em repartições públicas, por
exemplo, o aluno Tadeu, da cidade de Flores que chegou a um patamar
expressivo publicando livros, inclusive gramáticas”.
Referencia
a professora Marluce Simões.
“Já
no meu caso, dos diplomas que conquistei ao longo dos anos, os que
mais me marcaram foram o de ser mãe, avó e bisavó”. Orgulha-se.
“Nestes
45 anos de serviço à causa educacional, apesar das ‘n’
mudanças, acredito, piamente, que só através da EDUCAÇÃO é que
o homem descobrirá o valor de Deus; conhecerá a si mesmo;
reconhecerá a importância do outro; protegerá a Natureza;
conciliará tecnologia e ecossistema; terá acesso aos seus direitos;
cumprirá seus deveres; respeitará às leis; crerá na força da
terra; desarmará as Nações; valorizará o seu Pais, enfim,
usufruirá dos HUMANOS DIREITOS”.
Sentencia.
Inquieta,
repleta de sonhos e desejando aproveitar a melhor idade, bem antes de
completar seus 60 anos, em
1998 funda, com a Srª Josefa Farias Leão, conhecida por Zefinha de
Fortunato (in
memorian), o Grupo Folhas Outonais para bem viver a tão almejada
Terceira Idade.
Atualmente
o grupo se chama Associação Folhas Outonais, com identidade
jurídica, sede própria e conta com 37 associados. Realiza
atividades físicas, danças, coral, banda marcial, artesanato,
dramatização, palestras (formativa e informativa).
O
objetivo maior é aceitar a velhice como ciclo natural da vida,
seguindo
a máxima do poeta Dedé Monteiro: “a
idade boa é a que faz bem ao dono dela”.
A
poucos
meses de completar 80 anos, Marluce tem ainda: “muita
lenha para queimar”,
além das atividades e eventos da Associação Folhas Outonais, atua
como Ministra da Palavra pela paróquia Nossa Senhora do Rosário da
Diocese
de Afogados da Ingazeira.
Foi eleita
Presidente do Conselho Municipal da Pessoa Idosa de Serra Talhada por
04 anos, prazo estendido por conta da pandemia
do Coronavírus.
Maria
Marluce Simões de Medeiros é membro fundadora da Academia
Serra-talhadense de Letras, onde honrosamente ocupa a cadeira de
número 16, tendo como patrono o poeta carnaibense Zé Dantas.
Possui
textos de sua autoria, publicados em três coletâneas da ASL:
“Selecta
de Poesias”
em 2007; “Rastros
de um Decênio”
em 2009 e na Antologia “O
Sertão em Prosa e Verso”
em 2019; no “Villa
Bella Jornal”
e no extinto “Jornal
Juntos como Irmãos”,
da Paróquia do Rosário no qual foi colaboradora.
“Faço
revisão de livros de autores locais e circunvizinhos, prefaceio
obras literárias e
ainda sonho em reunir em uma coletânea minhas mensagens, contos e
poemas, frutos de momentos de reflexão e ‘registros’ de datas
especiais”. Menciona.
Na
juventude, ela iniciou aulas de Acordeon com o professor Napoleão da
cidade de Floresta, sonho interrompido por problemas conjugais, mas
que foi acalentado, e agora ele volta com toda força para superar as
mazelas deixadas pela chikungunya e pela Covid-19, com o professor
Arnor de Lima, o que a faz tocar umas notas na sua antiga sanfona
de
80 baixos,
presente de seu saudoso pai.
Que
mensagem deixa para as novas gerações de professores e literatos?
“Os
pais educam, os professores abrem caminhos para os alunos,
conscientizando-os de que cada um escreve sua própria história. São
protagonistas de seus sonhos e cabem-lhes traçar metas, e direcionar
sua sabedoria no Espírito Santo,
garra
para transpor obstáculos e coragem de águia para alçar voos.
Valorizem-se
pelos profissionais que são; acreditem no potencial que Deus lhes
presenteou. Nos locais de trabalho, lembrem-se de
que
lidam com “gente” e não com “coisas” Elogiem seus
colaboradores, corrija-os com misericórdia. E se errar, que não é
difícil, humildemente, reconheça o erro e procure corrigi-lo com
transparência sem usar máscaras nem subterfúgios. Assim, vocês,
educadores, se sentirão “gente que precisam de gente para serem
gente”.
Para
os literatos – os únicos indivíduos que se comunicam com palavras
(sons articulados), somos nós, seres humanos. Além desse
privilégio, contamos com outro: falamos a língua mais rica, a
Língua
Portuguesa,
pois a “Última
Flor do Lácio” se presta para tudo: é leve, é harmoniosa, é
versátil. De posse desses dois pré-requisitos, o literato conta com
a veia poética. Daí as sílabas, as palavras, as frases, os
parágrafos, o texto no contexto, “o artífice da palavra”
exterioriza seus sentimentos e os materializa em sonetos, glosas,
versos livres e tantos estilos para deleite de tantos amantes da
palavra escrita.
Pouco
importa que a produção seja de ontem, ou de hoje, advinda de
iletrados ou de
clássicos,
de crianças ou de idosos, da roça ou de centros de 1º mundo, todos
têm o seu valor, a sua utilidade e o seu público mediante a
sensibilidade de cada leitor”. Finaliza.
Por
Carlos Sett
Fotos digitalizadas por Gilberto Gomes